Não sei quanto aos outros, mas tem dias (e não são poucos) que acordo e fico me perguntando, mesmo aos quase 50 anos, pra que tudo isso, hein?
Eu quero apenas ser feliz, estar bem, e, então, por que eu crio tantos problemas que não precisaria criar, por que fico insistindo nas minhas próprias convicções, por que ainda discuto veementemente quando sou contrariado, por que não deixo simplesmente passar ao largo de mim mesmo tudo o que não me agrada, que me aborrece? Afinal, alguém pode me dizer qual o motivo para fazer tantos planos, tantos projetos; para assumir tantas responsabilidades? Fico me perguntando porque eu gasto tanto tempo atendendo as demandas das pessoas e fazendo (ou tentanto fazer) com que atendam as minhas. Putz...pra que tudo isso?
E esses dias me passam como aquelas luzes que piscam como alertas: luzes de semáforos postos em crezamentos que você não precisa parar, mas é bom tomar atenção; luzes que acendem e apagam em aparelhos eletrônicos que podem estar sob risco, pois estamos usando-os até quase a saturação, e que nos dizem para ir mais devagar senão o negócio pode explodir. E eu passo esses dias nesse estado de atenção, mais desperto, menos inconsciente, um pouco mais tenso do que o normal (e vejo que por incrível que pareça é possível ficar ainda mais tenso do que já sou naturalmente), com a impressão de qua algo pode estar fora do rumo.
Sábado estive com meus amigos. Estivemos algumas horas conversando, dando conta da saudade de amigos que não se vêem há algum tempo, compartilhando do que comer e beber, gargalhando na maior parte do tempo, sem demandas recíprocas a atender ou exigir, mas tão somente estarmos juntos; sem planos ou projetos para o futuro (o único é planejar o próximo encontro); sem estabelecimento de competição de razões ou convicções, mas tão somente querendo saber como andamos todos nesse tempo todo que se passou; sem qualquer responsabilidade a não ser marcar de nos vermos novamente.
Em dias como este último sábado entendo um pouco os alertas dos dias em que penso que as coisas não fazem sentido (ou podem não fazer), de que algo pode nao estar em harmonia quando me deixo levar simplesmente pelo dia-a-dia massacrante. Ainda é preciso, para mim ao menos, os dias de alerta, os dias em que abro melhor meus olhos e tento enxergar, afinal, para onde caminho nessa minha jornada de viver, especialmente para que eu lançe um olhar para experiências como essa - estar com amigos queridos - e deixe que esbarre em mim a sensação de que tudo o que faço nesse caminho só faz realmente sentido, todas as minhas ações entram no seu rumo e no seu prumo quando as empreendo para realizar a possibilidade de estar fraternalmente com as pessoas que têm minha afeição e eu as delas também. Sejam amigos, filhos, maridos e mulheres, primos, tios, bons colegas de trabalho, companheiros sob qualquer título ou razão, desconhecidos com quem encontro e nos enxergamos e interagimos em liberdade, por qualquer motivo.
Os dias de alerta me fazem lembrar que, ao final, não são automóveis, por eles mesmos, que me fazem feliz, assim como sofás e tijolos que eu compre, roupas e sapatos que eu vista, por exemplos. Sofás, carros e roupas me fazem feliz quando posso estar com as pessoas que eu amo, e quanto mais pessoas eu amar sinceramente, mais posso ter carros, tijolos e roupas a serem coadjuvantes nessa busca.
Amigos são mesmo especiais. Nos fazem feliz apenas porque temos laços e esses laços nos iluminam a alma, sem que precisemos deles para atender nossos próprio interesses, de afetos, roupas e tijolos, desejos e expectativas. Amigos nos fazem feliz porque estão lá, vivendo suas vidas, vencendo e sendo vencidos, aprendendo e talvez ensinando um pouco (ou muito), transformando-se todos os dias, rindo e chorando; crescendo, enfim.
Tenho orgulho dos meus amigos e gosto de estar com eles. A certeza que tenho disso me faz estar também absolutamente certo de que realmente vale a pena, de que vivemos para os encontros com as pessoas se soubermos fazer desses encontros a construção de uma afeição verdadeira.
Sueli e Marcelo (nossos afetuosos anfitriões e, por isso, em primeiro e especial lugar), Cris, Neiva e Eliane (de riso fácil e sincero), Zé Luiz que parece ter estado todos os dias na nossa sala de aula naqueles 1977/1979, Mirani corajosa e cheia de energia, Denise cuja espontaneidade ningém discute, Glauco sempre grande agregador, Angélica, cuja disposição em fazer amigos nos deu a si mesma de presente (nosso grupo fica ainda melhor com ela), Joel o sovina mais generoso que conheço ou conheci, Silvio e Malu, o casal que nos orgulha e nos faz acreditar que é possível, sim, ter o amor e o tempo como aliados, Sandra sempre e desde sempre doce e atenciosa, minha querida filha Lígia e também os meninos da Mirani, a Gabi da Denise e o Gustavo - da Sueli, que estiveram juntos conosco de boa-vontade, foi muito bem estar com todos vocês no último sábado.
Um grande abraço a todos!
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